A bola já tinha sido cantada no final de julho: a 3tentos entregaria margens mais fracas na divisão industrial ao longo do segundo trimestre. Divulgados ontem, os resultados mostraram um desempenho ainda pior do que o sinalizado pela companhia. Investidores se apavoraram, levando as ações da empresa a uma queda de 12% nesta sexta-feira.
A foto, isolada, pode assustar mesmo. O lucro líquido ajustado caiu quase 90% na comparação anual, para R$ 14 milhões, enquanto o Ebitda despencou 64%, para R$ 79 milhões, com margem de apenas 1,7%. Mas, ao olhar o filme, analistas afirmam que a piora é pontual — e ressaltam que a volatilidade é inerente à atividade da companhia.
“O segundo trimestre foi claramente fraco e abaixo das expectativas já revisadas para baixo do mercado, mas não extrapolaríamos o trimestre como uma deterioração estrutural na execução da 3tentos”, escreveu o analista Henrique Brustolin, do Bradesco BBI, em relatório.
O problema do trimestre esteve concentrado na divisão industrial. A rentabilidade do biodiesel, ou melhor, a falta dela, foi o principal ofensor em margem para o negócio. No trimestre, a margem da divisão industrial caiu quase 10 pontos percentuais, para 12,2% — o biodiesel respondeu por 4 pontos percentuais dessa queda.
Entre os fatores para o tombo está o fato de que o prêmio do biodiesel sobre o óleo de soja (chamado, no jargão, de “fee”) ficou negativo até o final de maio, ainda que uma tendência de recuperação tenha se desenhado a partir de junho.
“A gente já vê essa recuperação nos fees. Entendemos que no segundo semestre haverá uma melhora estrutural”, afirmou João Marcelo Dumoncel, CEO da 3tentos, em call com analistas nesta sexta-feira.
Uma das razões para a compressão de margens do setor é o atraso no mandato do B16, que estava previsto para entrar em vigor em março e deve ficar para 2027. As indústrias vinham se preparando para uma demanda maior com aumento de capacidade, enquanto as distribuidoras acumularam estoques.
“Nós entendemos que houve um momento das distribuidoras tentando antecipar essas compras, esperando também o aumento [da mistura], que acabou não vindo. Elas encarteiraram muito produto, físico, mas também como carteira nesses períodos bimestrais”, afirmou Luiz Augusto Dumoncel, COO da 3tentos.
Ao mesmo tempo, safras de soja abundantes no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso contribuíram para aumentar a oferta de biodiesel no mercado, segundo a empresa.
Para completar, atrasos na expansão da capacidade de esmagamento de soja e de produção de biodiesel obrigaram a 3tentos a comprar farelo de soja no mercado para cumprir compromissos e revender óleo de soja contratado.
Para os analistas Thiago Duarte e Guilherme Gutilla, do BTG Pactual, esse foi um dos principais motivos para as margens da 3tentos terem ficado abaixo da média da indústria — e surpreenderem tanto o mercado.
Em meio a esse cenário adverso e uma perspectiva pouco animadora para o B16, a 3tentos espera que produtores não integrados de biodiesel — que precisam comprar o óleo de soja — diminuam a oferta do biocombustível daqui para frente. Além disso, o fim da safra de soja deve contribuir para equalizar a oferta do biocombustível, disse Dumoncel.
Como resultado desse cenário mais duro, a 3tentos revisou para baixo a perspectiva de produção de biodiesel para o ano, concentrando a produção em volumes que virão a partir da produção integrada, o que deve trazer margens melhores. No guidance novo, a produção estimada é quase 19% menor do que a anterior, totalizando 740 mil toneladas.
Negócio volátil
No relatório distribuído nesta sexta, o BTG destacou que o negócio da 3tentos, especialmente a divisão industrial, está sujeito a uma alta volatilidade.
“A originação de soja é sazonal, enquanto a demanda por farelo e biodiesel não é, o que cria divergências de timing entre as compras de soja e as vendas de subprodutos que podem se traduzir em oscilações significativas de margem. Os investidores tendem a reagir exageradamente em ambas as direções”, escrevem.
No meio de todo o pânico com os resultados da companhia, o desconto no papel oferece uma oportunidade de entrada para investidores, segundo os analistas. Negociada a cinco vezes o lucro de 2027, a 3tentos tem um valuation atrativo para uma empresa que deve continuar a entregar crescimento de duplo dígito, analisou o BTG, que tem recomendação de compra para as ações da 3tentos.
“Esperamos que as margens de esmagamento permaneçam voláteis no curto prazo, mas consideramos o nível atual insustentavelmente baixo e continuamos a ver o investimento naempresa como atrativo, mesmo sob premissas conservadoras para as margens”, afirmou Brustolin, do Bradesco BBI, em relatório. O banco também recomenda compra para a 3tentos.


