A cadeia da soja realizou, no início deste mês, mais um evento focado nos desafios da liderança brasileira no mercado mundial de soja. Se hoje essa posição é uma realidade, na primeira edição do evento, promovido pela Embrapa Soja, a dianteira na corrida internacional ainda era uma conquista distante. Sete edições depois, muitos temas novos entraram na pauta, enquanto outros, infelizmente, permanecem estagnados.
A começar pelos assuntos recorrentes, a nossa infraestrutura de armazenagem e transportes permanece como um gargalo relevante. A apresentação do Prof. Thiago Péra, da ESALQ/USP, evidenciou que as ferrovias perderam participação na nossa matriz de transportes nos últimos 20 anos.
Se colocarmos em contraposição o Plano Nacional de Logística e as metas de redução de emissões de CO₂ com ferrovias abandonadas, subutilizadas ou ociosas, fica evidente que há elementos a serem corrigidos se quisermos nos manter competitivos.
Um destaque especial do evento foi o painel com a presença do Embaixador da China no Brasil, sr. Zou Chuanming, focado no futuro das nossas relações bilaterais.
O debate, que também contou com as contribuições de André Dobashi, pela Aprosoja MS, e Túlio Cariello, pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), reforçou as perspectivas promissoras para a soja brasileira. Contudo, ressaltou a necessidade de atenção constante a fatores críticos, como custo de escoamento, qualidade do produto e cooperação em novas pautas, como os biocombustíveis.
Novas tecnologias também ganharam espaço nas discussões, destacando-se a apresentação do dr. Raphael Machado, do INMETRO. Na ocasião, abordaram-se aparelhos capazes de analisar a qualidade do grão quase instantaneamente e com alta precisão, avanço que trará mais eficiência ao setor e reduzirá divergências nas análises visuais.
Para consolidar essa inovação, ainda serão necessárias amplas discussões sobre padronização técnica para garantir a acurácia dos dispositivos, processo no qual certamente teremos êxito, a exemplo do histórico com os medidores de umidade.
Mudanças climáticas
As mudanças climáticas e seus impactos na agricultura brasileira tiveram um momento especial com a exposição do dr. Marcos Buckeridge do IB/USP. Diante de tendências de longo prazo tão nítidas sobre os efeitos ambientais e das medidas necessárias para preveni-los ou mitigá-los, permanece a questão: como traduzir esse cenário em conscientização no curto prazo?
Não há resposta simples, mas está claro que parte dela depende do engajamento dos agricultores, principalmente por meio de mecanismos de pagamentos por serviços ambientais. Com o surgimento dos novos mercados de carbono, abre-se essa oportunidade para o Brasil.
Na esteira desse debate, o dr. Eduardo Bastos, do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg), foi muito preciso ao mostrar a necessária relação entre o agronegócio e a remuneração tanto pelas áreas preservadas quanto pelos produtos que geram sequestro líquido de carbono, como as matérias-primas para biocombustíveis.
Para encerrar, o evento contou com duas palestras dedicadas ao biodiesel e às suas oportunidades de uso e exportação.
O dr. Vicente Pimenta, pela ABIOVE, e o dr. Ricardo Tomczyk, pela Amaggi, abordaram as aplicações do biocombustível como substituto parcial ou total do diesel derivado de petróleo, destacando seu papel no fortalecimento da segurança energética e os excelentes números que atestam seu desempenho mecânico.
Enquanto Pimenta tratou das experiências com usos voluntários e dos testes em curso para garantir a viabilidade técnica, Tomczyk mostrou a experiência recente da empresa, e bastante positiva, na movimentação de máquinas agrícolas, veículos e barcaças.
Se o panorama apresentado já evidencia oportunidades e desafios cruciais, o que mais se pode esperar de um próximo evento? Compartilho minha opinião: a partir da criação de um comitê gestor composto pela Embrapa Soja e por representantes da produção agrícola, cooperativas, indústria, exportadores, supervisoras, empresas de rações e biocombustíveis, por que não pensar em documentos que sintetizem as ações prioritárias da cadeia produtiva para o ano seguinte e engajem todas as entidades em um trabalho conjunto? Talvez a união de todos pela competitividade seja, afinal, o nosso principal desafio.
Fonte https://www.theagribiz.com/agronegocio/um-novo-passo-para-o-crescimento-da-soja-e-derivados/


