Um ramo da família Vilela de Queiroz, integrante da holding que controla a Minerva Foods, está em apuros. Alvo de diversas ações de execução, o grupo IZVQ, que pertence aos herdeiros de Izonel Vilela de Queiroz, recorreu à Justiça para suspender os pagamentos aos credores.
Com mais de R$ 140 milhões em dívidas, o grupo agropecuário de Barretos entrou com o pedido cautelar em 30 de julho. A intenção é congelar as cobranças por 60 dias para organizar uma renegociação por meio de uma recuperação extrajudicial.
O pedido de proteção judicial abarca várias empresas do grupo familiar, incluindo a IZVQ Holdings, veículo por meio do qual os herdeiros de Izonel detêm 5% da VDQ Holdings, firma que pertence aos diversos ramos da família Vilela de Queiroz e controla a Minerva.
Indiretamente, o IZVQ possui 1,44% da maior exportadora de carne bovina da América do Sul. Com a cautelar, os herdeiros de Izonel protegem o ativo mais emblemático do grupo de execuções.
Os problemas operacionais
Em tramitação na Vara Regional Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem de São José do Rio Preto, o processo ilustra as dificuldades financeiras e operacionais que a IZVQ acumulou nos últimos anos.
Com uma operação concentrada em pecuária, o grupo já era excessivamente alavancado, mas tentou uma jogada de risco para virar o jogo. Nos últimos anos, fez investimentos ousados para melhorar o retorno da operação, mas eles não surtiram o efeito desejado, disse uma fonte que conhece a família.
Um exemplo disso foi a aquisição de uma fazenda em Wanderlândia, no Tocantins. A propriedade rural precisou de investimentos consideráveis em abertura de área, mas os resultados não foram satisfatórios, acrescentou a mesma fonte.
Essa fazenda tem capacidade estática para 7,5 mil cabeças de gado no confinamento, 10 mil cabeças em criação a pasto e integração lavoura-pecuária, e 1 mil hectares de agricultura, de acordo com dados citados pelos advogados do grupo IZVQ no pedido judicial.
A morte do patriarca
Além dos desafios operacionais, a morte de Izonel Vilela de Queiroz, em 2024, piorou a situação financeira. Os bancos endureceram o jogo, recusando-se a renovar linhas de crédito que estavam em nome do patriarca.
“Tal situação prejudicou o fluxo de caixa das empresas, iniciando a queda do faturamento e as dificuldades na quitação de obrigações”, justificou o grupo IZVQ, no pedido enviado à Justiça.
Sem crédito na praça e com investimentos de baixo retorno, a IZVQ ficou sem alternativa que não uma medida judicial para blindar o patrimônio, abrindo caminho para renegociar o passivo com os credores.
A participação na Minerva
A participação indireta na Minerva, embora seja o ativo de maior potencial da família, está longe de representar uma fonte de retomada financeira, ao menos no curto prazo.
A VDQ, que detém as ações da Minerva, se endividou com o Bradesco BBI em cerca de R$ 700 milhões em dezembro de 2024 para financiar um aporte de capital na gigante de carne bovina. Com isso, ficou bastante alavancada, praticamente sem margem para distribuir dividendos aos diferentes ramos da família.
Para que isso mude, a Minerva teria de pagar dividendos gordos o suficiente para honrar a dívida com o Bradesco e deixar uma sobra para remunerar os acionistas da holding.
Neste momento, a esperança da IZVQ é mesmo a renegociação com os credores. Só ela será capaz de tirar o grupo familiar da insolvência.
No processo, o sistema Sicoob é o maior credor do grupo IZVQ, com R$ 74,5 milhões a receber. O Banco Safra tem outros R$ 16,4 milhões, o Banco do Brasil, R$ 14,1 milhões, e o Banco da Amazônia, R$ 13 milhões. Quase R$ 15 milhões estão nas mãos de FIDCs: Quatá Clo, Audax e Sifra Star.
A família de Izonel
Atualmente, o grupo IZVQ é tocado pelo filho de Izonel, Eduardo Scannavino de Queiroz. No mercado, o herdeiro é visto como um nome sério, que recorreu a essa medida como forma de reestruturar o negócio.
Além dele, a família é composta por Regina Célia (a viúva de Izonel), e as irmãs Liliane e Larissa Scannavino de Queiroz. Cada um deles pede, individualmente, a proteção contra credores (uma vez que também exercem atividades agropecuárias na pessoa física).
Ao todo, o grupo tem capacidade de confinamento para 35 mil bovinos e pastagem para 15 mil cabeças, além de outros 2,2 mil hectares de agricultura. São ao todo 10 mil hectares próprios e 5 mil arrendados, incluindo a fazenda de Wanderlândia (TO) e propriedades em Santa Helena (GO) e Barretos (SP).
História
Apesar das dificuldades recentes, a família Vilela de Queiroz é tradicional na pecuária paulista.
O grupo começou no fim da década de 1950, com a fundação de uma empresa de transportes por Edivar Vilela de Queiroz, que é irmão de Izonel e pai de Fernando Galletti de Queiroz, atual CEO da Minerva.
Em 1969, os irmãos Vilela de Queiroz fundaram a Expresso Barretos Transportes, uma das maiores transportadoras de gado da região central do Brasil. Em 1975, com mais de um milhão de animais transportados por ano, os irmãos ingressaram na produção agropecuária, adquirindo fazendas.
A grande tacada da família ocorreu na década de 1990, quando compraram o embrião da Minerva, um abatedouro em Barretos que daria origem à maior exportadora de carne bovina da América do Sul.
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Procurada, a Minerva não comentou. A reportagem também tentou contato com os advogados da IZVQ, sem sucesso.
Atualizado às 18h22 para incluir o posicionamento da VDQ Holdings, reproduzido abaixo na íntegra:
A VDQ Holdings S.A. (“VDQ Holdings”), controladora da Minerva S.A. (“Minerva” ou “Companhia”), esclarece que a IZVQ é titular de participação societária minoritária no capital social da VDQ Holdings, sem qualquer poder de controle, individual ou compartilhado, e sem assento ou influência deliberativa nos órgãos de administração e governança da VDQ Holdings ou da Minerva.
Dessa forma, não há vínculo patrimonial, financeiro ou obrigacional entre a VDQ Holdings, a Minerva e as sociedades. Eventuais dívidas e execuções relacionadas às empresas e pessoas físicas do grupo familiar de Izonel Vilela de Queiroz não possuem qualquer efeito sobre o balanço, a liquidez ou às obrigações da VDQ Holdings ou da Minerva.
Reafirmamos nosso compromisso com a transparência e a solidez de nossa estrutura societária, e reiteramos que a situação financeira de acionistas minoritários, tomada individualmente, não impacta a gestão, a governança nem os resultados da Companhia.


